Pracinhas
O perfil dos guerreiros brasileiros

Vindos de diferentes partes do Brasil, eles tinham em média 20 anos de idade quando se viram diante da perspectiva de ingressar numa guerra distante. Em solo inimigo, os pracinhas – como eram carinhosamente chamados em referência ao termo “praça” (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) do Exército – viveram experiências que mudariam suas vidas para sempre. Cinco desses homens, nascidos e criados na região de Bauru, têm suas histórias registradas aqui. Histórias que eles e suas famílias lutam para manter vivas dia após dia.

ARMANDO PERNANCHINI

Momentos de tensão e surpresa marcam a história de Armando Pernanchini na Segunda Guerra Mundial

“A guerra é isso… a gente mata para não morrer.”

A conclusão de Armando Pernanchini evidencia a angústia que viveu enquanto foi membro da 1ª Companhia de Petrechos Pesados (CPP I), que pertencia ao 6º Regimento de Infantaria da FEB. Ainda criança, ele já havia vivido drama semelhante, quando seu pai foi assassinado e deixou para a esposa a tarefa de criar oito filhos pequenos.

Na época, o cabo Armando estava com apenas sete anos e logo teve que aprender a manejar martelos e furadeiras para exercer a marcenaria. Anos mais tarde, os equipamentos de trabalho mudaram quando ele passou a vestir a farda do Exército brasileiro. Os 280 cruzeiros mensais que ganhava como militar tinham um destino: ajudar a mãe com as despesas de casa.

Para o pracinha, a notícia de que participaria da Segunda Guerra Mundial não foi surpresa. Acompanhado dos 5 mil soldados do 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira, ele embarcou no navio estadunidense General Man em 2 de julho de 1944. Até então, os soldados não sabiam o destino. Ele revela que essa era uma tática para despistar um eventual torpedeamento por parte dos alemães. Na chegada à Itália, encontrou um local destruído pela sangrenta batalha. Ruas desertas, vidros quebrados, navios afundados no porto eram a realidade de Nápoles.

No Velho Continente, os soldados brasileiros receberam ordens e instruções do comando militar dos Estados Unidos, que buscava adaptar os jovens e inexperientes soldados à dura realidade da guerra. A região de combate era montanhosa e o exército alemão dominava os locais mais altos, de onde podiam ver os movimentos dos pracinhas tentando se aproximar de suas posições. Armando lembra os cuidados e a cautela que precisavam manter para não serem atingidos pelos inimigos.

O marceneiro Armando (direita) recebeu treinamento antes de se tornar membro da 1ª Companhia de Petrechos Pesados da FEB.
Crédito: Arquivo pessoal Armando Pernanchini

Ainda assim, a guerra trouxe muitas surpresas, como quando conseguiram prender 15 mil alemães de uma só vez. Apesar de se lembrar com orgulho dos momentos de bravura dos brasileiros, Armando Pernanchini também relata episódios de grande apreensão durante o conflito. Exemplo disso foi a surpresa que teve quando percebeu que dormia próximo ao corpo de um inimigo morto.

Para Armando, o que ajudava a superar a pressão do campo de batalha eram as cartas com notícias da família, sempre reforçando a esperança de sua volta. O regresso ao Brasil, aliás, é um dos momentos mais vivos na memória do pracinha. Assim que pisou no Rio de Janeiro, pediu a um amigo que avisasse sua família que ele estava vivo. O soldado diz que chegou a anunciar sua chegada no microfone da Rádio Nacional.

Após o conflito, Armando recebeu condecorações pelo mérito de participar da maior guerra de todos os tempos. Mas ele não aposentou a farda. Com a fundação da Polícia Rodoviária pelo governador Ademar de Barros, em 1948, continuou sua história.

Cerca de 15 mil soldados da 148ª Divisão Alemã se renderam aos brasileiros quando perceberam que a derrota era certa.
Crédito: segundaguerra.net

Galeria de Armando Pernanchini

Crédito: Arquivo pessoal Armando Pernanchini

ANTÔNIO HONÓRIO DE LIMA

Militar de corpo e alma, a honra de defender a pátria evitou que agudense fugisse do Exército

“Seja o que Deus quiser. Se é pra viver ou morrer, vamos lá.”

Para Antônio Honório de Lima (ou Cabo Lima, como prefere ser chamado), o medo não era desculpa para desistir de embarcar para a Europa e lutar contra o nazi-fascismo. Na memória do veterano agudense de 90 anos, as histórias vividas nas montanhas italianas durante a Segunda Guerra Mundial ainda estão bem vivas.

Quase setenta anos depois do conflito, a disciplina de um legítimo militar ainda está presente em seu cotidiano. Para ele, a aposentadoria da farda não justificaria o abandono da postura de soldado. Por isso, até hoje faz questão de vestir seu terno e decorá-lo com as medalhas que simbolizam sua bravura. “Ele é assim. Meu marido também era militar, e meu pai sempre fez questão de bater continência para ele”, lembra uma das filhas.

Antes de partir para a Itália com a 1ª Cia do Regimento Sampaio da FEB e de participar de batalhas como Castel D’aiano, Montese, Belvedere, Piacenza, Porretta Terme e Monte Castelo, Cabo Lima serviu o Exército Brasileiro em Campo Grande (MS) e Caçapava (SP). Quando recebeu a notícia de que a cobra iria mesmo fumar, um amigo militar tentou convencê-lo a desertar. O amigo fugiu, mas Cabo Lima decidiu lutar pelo seu país, mesmo com a família preocupada com seu destino na guerra.

No território italiano, o agudense participou de batalhas difíceis e decisivas, como a tomada da região de Monte Castelo, a maior vitória da FEB. O lugar era ponto estratégico para a ofensiva dos alemães, e sua conquista exigiu grande esforço dos pracinhas.

Para piorar a situação dos jovens soldados durante as batalhas, havia ainda o intenso frio e a escassez de alimentos, que eles tentavam enfrentar com o peculiar “jeitinho” brasileiro. Cabo Lima lembra que eles procuravam comida em casas abandonadas pelos italianos. Em uma ocasião, conseguiram descobrir um lugar que estocava queijo e barris de vinho. O pracinha se diverte ao lembrar que alguns soldados saíram bêbados do local encontrado.

Outro motivo de diversão para o expedicionário é a lembrança do respeito que os alemães tinham pelos brasileiros. Segundo o pracinha, os americanos e ingleses que lutavam na Itália

eram medrosos, enquanto os brasileiros se arriscavam mais durante as batalhas. Por isso, eles causavam receio aos “tedescos”, como os italianos chamavam os germanos. Entre os motivos de tamanha coragem dos pracinhas estava a saudade da família. Lima não esquece a emoção que sentia ao receber cartas, até mesmo quando elas vinham censuradas. A emoção só não foi maior daquela sentida no momento da volta ao seu país. Segundo ele, em meio às comemorações ao avistarem o Rio de Janeiro, os pracinhas quase viraram o navio que os trazia de volta.

O ex-combatente exibe com orgulho as medalhas que conquistou por participar da Segunda Guerra Mundial.Crédito: Arquivo Antônio Honório de Lima

Galeria de Antônio Honório de Lima

Crédito: Acervo pessoal Antônio Honório de Lima

 

MARIO DAMICO

Macatubense lembra do temor daqueles que iam para o front

“Coisa medonha”

Assim Mario Damico descreve a maior parte de suas experiências na Força Expedicionária Brasileira, como um dos milhares de brasileiros que atravessaram o Oceano Atlântico rumo aos combates na Itália. Passados quase setenta anos desde o fatídico dia em que desembarcou no porto de Nápoles, ele ainda parece não acreditar em tudo que viveu.

Se o tempo e a idade já o impedem de lembrar todas as datas e nomes de lugares por onde passou, o pracinha faz questão de compartilhar momentos inesquecíveis de sua história. Lembranças de um jovem de 22 anos, nascido em um sítio no distrito de Bocaiuva (atual município paulista de Macatuba), que deixou a família e os amigos quando foi lutar em solo italiano. História de um homem que sobreviveu às insanidades do conflito mais cruel e destrutivo de todos os tempos, e mesmo assim, aos 91 anos de idade, consegue relatar tais episódios com o bom humor que transforma suas lembranças em verdadeiros tesouros.

Na sala da casa do expedicionário é possível perceber a importância que os sete meses na Itália tiveram em sua vida. Na parede, como objetos de decoração, o Certificado de Reservista, o Diploma da Medalha de Campanha e um quadro com a cobra fumando, símbolo exibido pelos febianos com orgulho, ocupam lugar de destaque. Assim como o porta-retrato onde um jovem Mario Damico posa para uma foto oficial vestindo sua impecável farda, um mês antes de ser convocado para integrar o contingente brasileiro que se uniria à 5ª Companhia do Exército Americano na Itália. Prenúncio de dias que marcariam sua vida para sempre.

O caminho entre Campo Grande (Mato Grosso), onde Mario servia o exército, e a Vila Militar de Deodoro, no Rio de Janeiro, que abrigava brasileiros de diferentes partes do país antes de embarcar nos navios americanos que faziam a travessia dos combatentes, foi o início de uma viagem repleta de incertezas e medo. Em alto mar, contando apenas com a vigilância de um “blimp” (zeppelin) da Marinha dos EUA para proteger as embarcações militares contra possíveis ataques inimigos, o pracinha diz lembrar das ondas gigantes e a correria pelas escadarias do navio quando alguma ameaça parecia se aproximar. “Coisa medonha”, como gosta de reforçar.

Apesar de não ter ido para o front, como muitos de seus companheiros, o macatubense esteve imerso na ansiedade e na apreensão daqueles que esperavam no Depósito de Pessoal da FEB, até que sua hora chegasse. E ela quase chegou duas vezes. Mas “por sorte”, como garante o pracinha, nunca precisou embarcar nos caminhões americanos que levavam os soldados do acampamento brasileiro, na região de Florença, até a linha de frente do conflito.

A espera, os companheiros perdidos, o frio desconcertante, os dias de treinamento e a saudade da família só viriam completar a rotina do pracinha na zona de guerra. Experiência pela qual passou ileso, mas ainda o faz se emocionar toda vez que fala do retorno para casa; o reencontro com aqueles que não tinha certeza se um dia veria novamente.

O retrato tirado um mês antes de receber a notícia de que iria para guerra ainda ocupa lugar de destaque na casa de Mário Damico

Galeria de Mario Damico

JOÃO MINETO

Em nome do pai

Filho de um italiano, João Mineto foi levado pela primeira vez à terra de seu pai quando tinha 22 anos de idade. Não foi lá para reencontrar suas raízes ou remontar suas origens. Ele foi para a guerra. Soldado do Regimento Sampaio, encarregado do conserto de linhas telefônicas entre o front e o comando da FEB, o pracinha, natural de Macatuba (São Paulo), foi testemunha dos horrores da guerra. Bombardeios. Rajadas de tiro. Explosões. Mortes. Todos temas comuns nas poucas histórias que compartilhava com a família depois que voltou para o Brasil. Histórias que seu filho Manuel mantém vivas.

Nas raras vezes que falava de seus dias de guerra, ele lembra do pai contar sobre o desembarque em terras italianas, que, na verdade, ocorria em alto mar. A chegada ao continente só era possível após o transbordo em barcas abarrotadas de soldados, todos chocados pelo fato de estarem em um país diferente e hostil, onde veriam amigos morrerem e as adversidades crescerem.

Mesmo que não fosse protagonista de muitas das histórias que trouxe do front, João acabou sendo a ligação com o dia a dia do campo de batalha. Esta é a imagem que os filhos fizeram dele. Particularmente para Manuel, tornou-se marcante o relato do pai sobre os nove pracinhas que faziam patrulha em dado cemitério na Itália e decidiram repousar no local após o trabalho, com a autorização de seu comandante. O que eles não esperavam é que os alemães estivessem escondidos ali, dentro de trincheiras. No final das contas, apenas dois brasileiros sobreviveram para relatar o acontecido.

Na medida em que narra esses fatos, Manuel deixa transparecer a importância de cada um deles na constituição da identidade de seu pai, a quem trata como um herói. Pela perseverança que manteve ao longo da vida, ou simplesmente por tudo que viveu, ensinou e aprendeu nos anos que se seguiram a sua experiência na Segunda Guerra Mundial. Com lágrimas nos olhos, Manuel evidencia o orgulho pelo pai. E também a dor pela ausência do homem que, mesmo após sua morte, aos 88 anos de idade, segue vivo na memória da família Mineto.

Segundo Manuel, sua maior realização foi conseguir levar o pai e a mãe, também irmã de um pracinha, à Itália pela segunda vez. Desta vez, sem ameaças, destruição ou mortes, mas com o simples propósito de refazer os caminhos que mudaram a vida de João Mineto. Revisitando memórias que, mesmo dolorosas, lhe proporcionaram um importante reencontro com o passado. Mais uma vez, a viagem marcou as vidas de pai e filho.

Manuel ao lado do pai no monumento em homenagem aos pracinhas brasileiros em Pistóia, na Itália

Galeria de João Mineto

Crédito: Acervo pessoal João Mineto

JACK DIAS PIRES

Procurando aventura, adolescente entrou na maior guerra da história

Em meados da década de 1940, aos 18 anos, o estudante José Jack Dias Pires resolveu se alistar como voluntário da Força Expedicionária Brasileira, deixando os pais preocupados com a “loucura” do primogênito. Como ele mesmo relatou anos depois, a atitude era reflexo de sua juventude. Ele se apresentou para a guerra “como uma criança que busca aventura”. Com esse espírito, partiu para o Rio de Janeiro para treinar com os demais companheiros do Exército Brasileiro.

Pouco depois, o irmão Luciano Dias Pires acompanhou o susto e o sofrimento da mãe, Lázara, quando recebeu uma carta escrita pela namorada de Jack na qual contava sobre a partida para a guerra. A única forma de se comunicar com o filho era por meio das cartas que, muitas vezes, chegavam rasgadas após passarem pela censura imposta pelo Exército, com objetivo de evitar que os soldados se sentissem desestabilizados ou que as tropas fossem localizadas por inimigos.

A vida de Jack esteve por um fio em muitos momentos. Os aviões alemães, que sobrevoavam destruindo tudo o que encontravam, foram os principais responsáveis pelos riscos sofridos por ele. Em Pistóia, Jack jantava com outros pracinhas quando barulhos ensurdecedores de bombas assustaram a tropa. Depois de segundos paralisados, correram até um galpão de refugiados. Jack se apoiou na parede e sentiu sua mão escorrer por um líquido pastoso. Ao acender a lanterna, percebeu que havia sangue e, ao lado de seus pés, um corpo esquartejado. A história foi narrada em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em maio de 1968. O irmão Luciano também lembra outras histórias contadas por Jack, como o cenário da morte de Benito Mussolini e outros ataques aéreos alemães que quase lhe custaram a vida.

Também na Itália, Jack teve o primeiro contato com algo que se tornaria parte essencial para os próximos anos de sua vida. Uma câmera comprada em Piza foi o ponto inicial para o jovem amadurecer o gosto pela fotografia, que se tornaria sua profissão. Após o retorno a Bauru e o encontro emocionado com a família, Jack encontrou dificuldades e começou a trabalhar em uma lanchonete. Anos depois, partiu para São Paulo e seguiu como fotógrafo do jornal O Estado de São Paulo.

Galeria de José Jack Dias Pires

Após a guerra, Jack se tornou fotógrafo do Estadão. Em 1968, o jornal publicou uma matéria sobre a história dele nos campos de batalha.
Crédito: Arquivo Estadão

Crédito: Arquivo pessoal Luciano Dias Pires

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